quarta-feira, 6 de julho de 2016

JILÓ COM "J" ,OU COM "G" ?

Houve uma época em que eu era professor. Mais precisamente entre os anos de 1988 a 1994. As disciplinas lecionadas por mim eram sempre I.E.D.(Introdução ao Estudo do Direito) Psicologia Geral,Sociologia e Filosofia.
Era um Curso Superior,com maioria de alunos adultos, e  na minha sala sempre tinha muitas senhoras e senhores de mais de 40 anos de idade, alguns funcionários públicos já bem situados na vida...
E o meu dia de aula era sempre aos sábados à tarde. Num horário cansativo,onde muitos dos alunos e professores estavam com sono. Era preciso ter "jogo de cintura" para ensinar e mantê-los interessados na aula. E por isso,eu fazia muitas bincadeiras,contava causos e às vezes até piadas, sempre "ligadas" à disciplina ensinada.
Contudo,vez por outra tinha de substituir um colega ou uma colega,que faltava ou se licenciava por uns dias...
 Assim, numa destas ocasiões,tive de substituir uma colega, a professora Denise, que era a titular da disciplina "Português".
Isto mesmo:  substituia a professora do nosso linguajar camoniônico, esta língua patria,com todas as suas nuances da gramática e interpretação  dos textos, inclusive com explicações bem corretas que ela passava  da análise sintática,  da "fonética" e dos  "fonemas", versificação e da "etimologia" das palavras ,como deveria ser até hoje...
Numa destas aulas,não sei por quê cargas d'água,uma aluna, já de uma certa idade, me questionou :
-"Professor"  ,perguntou ela,  " a palavra "Jiló" se escreve com "J" ou com "G" ?
Ressalte-se que esta senhora era uns 20 anos mais velha que eu, na época (acho que ainda é hoje ,claro....)
-Eu,que sempre tive o cuidado de respeitar as pessoas mais velhas, e respondê-las ou lhes tirar as dúvidas,quetionei:
-Por quê a dúvida ?
Então ela me disse que tinha discutido com a professora titular da disciplina Português, que era a Denise, e que para ela, aluna, "Jiló" se escrevia com "G"...ou seja : "GILÓ" !
E completou ,dizendo que a Professora Denise insistiu que Jiló se escrevia com "J", tal como  Jibóia,Jaguatirica,Jararaca,etc. e outras palavras de orígem indígena...
Eu então,sabedor que essa regra da professora Denise era a certa, lhe confirmei que realmente  JILÓ,JIBÓIA e as outras palavras acima, se escreviam com "J", tal qual a minha colega lhe ensinara.
A Denise, que era bem jóvem, e estudante de Direito na época, era minha colega há  uns três anos neste mister de "dar aulas".. Eu tinha uma grande amizade por ela e muito apreço.  Sempre nos víamos mais vezes e  nos sábados...
Só que, invariavelmente,por eu já ser formado em Direito e ter um escritório no Centro de Goiânia e ela ainda era estudante,às vezes ela ia me visitar, "pegar" um livro de Direito ou um Código emprestado.....
-E viramos colegas na arte de ensinar...
E fazíamos isto porque realmente gostávamos e precisávamos,pois não é fácil sair de casa sábado à tarde,depois de uma semana cansativa e enfrentar sala de aula com 40 alunos ou mais. E ela era muito boa professora,esfoçada,interessada.
Hoje sei que ela é  alta funcionária de uma Empresa,em Brasília,D.F...
Mas voltando à aluna questionadora,esta,que já tinha um curso superior,discutiu comigo e chegou a dizer que eu estava defendendo a colega professora ,por que ela, a Denise,era jovem e bonita.
-E realmente era. Mas eu a defendi muito mais porque ela tinha ensinado certo.
A aluna,que prefiro omitir o nome, e que era uma funcionária pública já bem sucedida,ficou meio chateada comigo, porque além de discutir, ela me disse que tinha aprendido em 1900 e antigamente,quando fizera o 1º grau, que JILÓ era com "G"! 
E eu lhe disse ,em tom de brincadeira, que com o tempo, o "G" dela viou "J"... Logicamente que toda a turma de alunos sorriu...
 E ela pensou que eu estava "debochando" dela, que estivesse  chamando-a de velha,burra,ou coisa parecida. Na verdade eu tentara amenizar o problema brincando...mas, deu errado...
E para a alegrar a turma de alunos, no final desta discussão,eu disse que, ela continuaria comendo "Jiló" com "G" ,que eu continuaria a comer "Jiló" com "J"....
-Que o gosto seria o mesmo, dependendo apenas dos "ingredientes" ou temperos postos na comida...
 Isto a enraiveceu ainda mais. E eu lhe disse ainda:
_-A Sra já viu aquelas plaquinhas escritas à mão, nas bancas da feira,onde estava escrito "Jiló" com "G" ?
-Ela disse que viu sim.
E eu retruquei:
-Então é porque o feirante é analfabeto....
Isto só piorou as coisas. ...
Depois ,quando a Denise voltou,contei-lhe este fato,na sala dos professores. Houve risos e ficou por isso mesmo....
- Afinal de contas,tanto eu como ela,estávamos certos !
Enquanto que que a aluna "discordante", ficou meio ressabiada comigo,até o final do Curso.
Passou-se muito tempo e depois de anos ,a encontrei na rua,conversamos e ela me disse que eu tinha razão e que nenhum ressentimento ficara . Gostei de saber disso, pois fiz muitos amigos e até clientes,entre os alunos que tive nos 08 anos ininterruptos em que fui professor.
Bons tempos aquele, em que os meus três filhos eram bem criancinhas e os deixava em casa,num sábado,para ir dar aula,por muito pouco dinheiro...
-Mas valeu a pena...
Pois o que aprendi e vivi alí ,neste tempo de convivência, com mais de 1000 alunos (entre jóvens e adultos, homens e mulheres),não tem dinheiro no mundo que pague !

P.S. Informo aqui que,infelizmente,no dia 06 de janeiro deste ano de 2016,a professora Denise P. Lima,cujo nome cito aqui,faleceu,vítima câncer,com apenas 45 anos de idade. Ela morava em Brasília,D.F. Era casada mas,pelo que soube,não teve filhos.

A.G. Reedição em 06 de julho de 2016.