domingo, 9 de julho de 2017

GRATIDÃO NÃO TEM PREÇO !

O senhor, quase  setentão, costumava se sentar quase todas as tardes naquele bar-lanchonete que ficava praticamente na frente do prédio em que ele morava. Tanto o prédio como a lanchonete eram bem localizados,bem no centro da cidade grande, num local tranquilo,sem muita movimentação após às 20 horas. Os frequentadores iam muito lá no final da tarde,entre 17 e 19 horas,quando saíam do trabalho.
Mesmo assim, após as 8:00 da noite, algumas pessoas gostavam de ir alí, fazer um lanche,conversar,jogar conversa fora,como se diz.
E o nosso personagem, de nome Salomão, era um destes. Sempre solitário,nunca estava acompanhado. Chegava sempre por volta das 8:30 da noite. Pedia seu lanche, ou uma cerveja com tira-gosto, acendia seu cigarro, e ficava ali calado, olhando as pessoas passarem ,e os outros fregueses que sempre estavam nas outras mesas do bar-lanchonete. 
Normalmente eram sempre as mesmas pessoas. Pessoas que moram por perto e não gostam de ficar trancadas em casa,preferem ir até um bar,uma lanchonete,tomar uma cerveja,ver gente. 
-Aliás,como ele também fazia sempre.
E nestes últimos cinco anos foi ali que o Sr. Salomão passava parte da noite. Em alguns dias o proprietário do bar-lanchonete colocava uma TV grande lá,para as pessoas verem o futebol. Nos outros dias era música mecânica mesmo: um som simples,que tocava músicas brasileiras,de boa qualidade,sem fazer muito barulho. O proprietário,assim como a maioria dos frequentadores não gostavam muito de músicas barulhentas. E o dono do bar-lanchonete agradava os fregueses,colocando as músicas preferidas por eles.
Afinal de contas o freguês sempre tem razão e são eles que mantém o comércio.
Em todo estes dias em que o Sr. Salomão ia ali, era apenas uma "garçonete" que lhe atendia. No bar-lanchonete tinha mais um garçom. Mas, quem atendia o Sr. Salomão era sempre a garçonete que,quando não tinha mais fregueses,ela se sentava numa cadeira, junto à mesa dele e "puxava" conversa com ele. Muitas vezes ficava mais de uma hora conversando com ele,se não tinha mais gente para atender. Isso sempre depois das 10 horas da noite.
O nome dela era Jacqueline e tinha pouco mais de 25 anos de idade.. Uma jovem sofredora da cidade grande,que foi mãe solteira muito cedo e não tivera a sorte de estudar ,de fazer uma Faculdade,ou conseguir um trabalho melhor,como muitos outros jovens  da idade dela. Então o que apareceu de trabalho foi ser garçonete naquela lanchonete que pertencia a um tio dela. Ali ela trabalhava todos os dias das 16:00 horas da tarde até a meia-noite,quando então a lanchonete fecha as portas.
Ela gostava do trabalho neste horário,pois lhe permitia arrumar a casa de manhã,levar seu único filho de sete anos de idade para escola,fazer almoço para ele ele,quando voltasse da aula. E só depois das 15:00 horas ela saia de casa para o trabalho.E seu tio a levava de volta para casa,todos os dias. Esta era a rotina dela,que morava na periferia,bem distante dessa lanchonete onde trabalhava já há mais de cinco anos ... 
-Começou a trabalhar lá em em 2011.
E essa era sua rotina: trabalhar ali naquele bar-lanchonete todos os dias à tarde e à noitinha e que, às vezes se misturava com a rotina do Sr. Salomão que também ia muito lá.
Nas conversas entre eles, ele perguntava sobre a vida dela e ela sabia da vida dele. Mas nem tudo ele falava para ela. Se era rico ou se era pobre...Só dizia que tinha ficado viúvo em 2010 e que morava bem perto,num prédio alto,para o qual ele apontava com o dedo,dizendo :
 -" É bem ali ..."
E o que mais ele gostava de fazer ali naquele bar era contar toda a sua vida para a moça,que,muitas vezes,tinha tempo para escutá-lo. 
E ela sabia que ele,que morava sozinho,era aposentado e que os dois filhos dele moravam fora do Brasil, e  que quase não vinham visitá-lo e que estes estavam bem ricos.
Já ele ficou sabendo que ela era mãe solteira,bem pobre e que morava na periferia. E eles eram apenas amigos mesmo,pois nenhum envolvimento ocorreu entre eles além dessas conversas no bar-lanchonete. Eram, por assim dizer,amigos confidentes.
A garçonete nunca "se insinuou" como mulher para ele.Via ele como um "vozão",um solitário,que tinha necessidade de conversar com alguém. E ele sabia que ela estava trabalhando ali para se manter,pois não tinha marido e nem outro tipo de renda.
E assim foi a vida destes dois personagens por mais de cinco anos. Vez ou outra o Sr. Salomão, agradecido por ela lhe dar atenção,levava para ela uma caixa de bombons, dessas de chocolates. Ele falava claramente que era pela atenção que  a Jacqueline lhe dispensava.
No final do ano passado o Sr. Salomão ficou uns dias sem ir lá. Esteve meio adoentado e um dos filhos até veio ao Brasil lhe visitar,levou-o no hospital, ele ficou internado,soube que estava com câncer..Mas saiu logo do hospital.
Em janeiro deste ano de 2017, ele voltou à lanchonete. Mais calado e pensativo que antes. Porém ficava alegre ao ver Jaqueline. Ao conversar com ela.
E pediu para ela colocar num papel o nome todo dela e o endereço dela correto,dizendo que iria lhe dar um presente ,umas coisas para ela ter em casa. 
E ela, curiosa, perguntou: 
-É uma geladeira ?  Ou é uma máquina de lavar ?  
É que estes dois itens importantes numa casa normal ela não tinha. Era bem pobre mesmo. O dinheiro que ganhava era para pagar aluguel e comprar comida. Para ela e para o filho.
Em fevereiro,chegou na sua casa duas encomendas ,entregues por uma destas lojas de Eletrodomésticos : Uma geladeira e uma máquina de lavar. Exatamente o que ela precisava. Coisas úteis demais numa casa,mas que ela,nos seus anos de trabalho ainda não tinha conseguido comprar. 
E ficou contente, e agradeceu demais ao Sr. Salomão.
Passou o carnaval,veio o mês de março e o Sr. Salomão não mais apareceu na lanchonete onde trabalhava a Jaqueline. Ela achou estranho,mas não tinha como saber o que acontecera,pois não sabia o nº do Apartamento e nem maiores dados do Sr. Salomão,para poder ir procurar por ele onde ele morava. A amizade entre eles era só no no local de trabalho dela...Na lanchonete.Não se comunicavam além daquela hora em que ele estava lá. E ele era bem discreto.Nunca deu o  nº do telefone dele para ela. 
E de repente, no último dia 20 de março deste ano de 2017, um senhor de boa aparência esteve no bar-lanchonete em que a Jacqueline trabalha. Se identificou. E lhe disse que era advogado,amigo do Sr. Salomão e que precisava de todos os dados pessoais dela para lhe passar uma valor em dinheiro,que o Sr. Salomão tinha deixado para ela,num testamento feito antes da morte dele. Ou seja, assim ela também ficou sabendo que o Sr. Salomão,aquele senhor grisalho,discreto e que conversava com ela quase todas as noites na lanchonete,tinha morrido. E o dia que isto tinha acontecido: dia 15 de março de 2017.
Ela ficou triste ao saber. Lágrimas lhe caíram dos olhos.Ele era,no próprio dizer dela "um amigo querido. Um confidente".
O Advogado disse a ela :
-" Acho que ele a via com uma filha. Uma filha mulher,que ele não tivera,pois só teve dois filhos homens".
E Jaqueline custou acreditar nas palavras do Advogado,de que ela era beneficiária no testamento do Sr. Salomão. Mas ele lhe mostrou a cópia do documento oficial de testamento, tirado do Livro do Cartório. E o Advogado lhe disse que ela precisava ir até o Escritório dele e no Cartório, para poder liberar o valor em dinheiro que havia ficado para ela. Tudo foi feito com o consentimento dos filhos dele, que souberam do testamento, e também ficaram com muitos bens de herança,deixados pelo pai . Não fizeram questão dessa doação-testamentária feita pelo pai deles antes de morrer. Além disso eles já tinham ficado com parte da herança deixada pela mãe deles,falecida em 2010.
E no dia 23 de março passado,uma quinta feira,com a presença do advogado, Jaqueline pegou  a autorização oficial para ela levantar no banco a quantia de  R$ 150.000,00 (Cento e Cinquenta Mil Reais), passar para uma conta de poupança no banco,em nome dela,para depois ela comprar uma casa ou um apartamento para ela e seu filhinho. Com a obrigação de prestar contas disso no Processo de Inventário num prazo de seis meses.
Ou seja,ela ganhou de uma pessoa estranha à sua família,o que mais precisava: uma casa.
E ela passou todo o dia 23 de março de 2017 chorando de contentamento. E pôde confirmar,que apesar de viver num mundo tão  egoísta e violento como o de hoje,ainda existem pessoas boas,de bom coração.
E eu fiquei sabendo dessa história por parte do tio dela, o dono do bar-lanchonete...
Uma história de pura gratidão !
Uma gratidão por mais de cinco anos que a garçonete Jaqueline dispensou ao Sr. Salomão,cujo nome completo ela só soube pelo documento de testamento apresentado pelo advogado!
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 Original de : A.L.G. - Reedição : 9 de julho de 2017.