domingo, 5 de fevereiro de 2017

"ENCONTROS CLANDESTINOS " (Conto ).

O Sr. João Silva, que tinha apelido de "baiano",já era aposentado, mas não gostava de ficar muito tempo parado. E para completar a renda,arrumou uma atividade extra: vender água de coco num determinado "ponto" no centro da Cidade. 
E todos os dias de semana ele saía lá pelas 9:00 do barraco onde morava, na periferia, e ia de ônibus até seu "ponto",onde ele já tinha sua banquinha,com um "carrinho geladeira", e,obviamente os cocos, que ele guardava numa garagem vizinha. 
Depois, era só arrumar o carrinho, limpar o "equipamento" e começar a vender a água de coco,para os fregueses que por ali passavam. Ele vendia copos pequenos a  R$ 1,00 e os maiores a R$ 2,00. Dava para ganhar uns trocados diários. Dava para comprar comida e pagar suas contas, já que ele era sozinho...
Ele era bem organizado e tinha no seu "carrinho" os copos plásticos e cesto de lixo, como é recomendando pelos ficais. 
-Tudo bem limpo !
Esta sua atividade lhe dava uma boa renda extra,de mais ou menos uns R$1.500,00 mensais,além da aposentadoria de um salário mínimo que ele tinha,uma vez que normalmente é esse o valor que recebem as pessoas mais simples,após terem trabalhado durante muito tempo.
Esse nosso personagem era um homem forte,apesar de seus quase 60 anos de idade. Ele tinha sido casado,mas já tinha se separado da esposa há mais de 10 anos, e morava sozinho,num barracão que alugava do Sr. Alcides, situado no fundo da casa deste senhor. Tinha uma entrada própria, com um portãozinho estreito,por  onde o baiano entrava e saia sem atrapalhar ninguém, E nem o proprietário da casa via a hora que ele saia ou chegava.
Ele tinha filhos adultos,mas nenhum deles morava na mesma cidade que ele.Tinham ficado com sua ex-esposa,na Bahia.
E como seu casamento não dera certo,não queria se casar de novo. Assim,ele já estava acostumado e era solitário mesmo. 
Mas,nem tanto...
E, de vez em quando, ele arrumava umas "namoradas".Destas que a pessoa namora com elas,paga e depois ela vai embora. Ou seja, ele namorava por minutos,com certas mulheres "avulsas" que se prestam a esses serviços sexuais em troca de dinheiro mesmo...
-As prostitutas,por assim dizer ! 
Mas, o Sr. João, o "baiano", nunca as levava para o barracão onde morava. Ele as encontrava no lugar onde elas prestavam tais serviços. 
Além disso,ele tinha a mania de guardar dinheiro em casa, debaixo do colchão. E,logicamente, tinha medo de ser roubado por alguma destas mulheres livres,com as quais ele "transava" de vez em quando. 
-Mulheres estas que ele mal conhecia...
Mas,um belo dia,no terminal onde os ônibus fazem a integração,de um bairro para outro,o "baiano" conheceu a Maria, uma mulher de uns 40 anos,morena,forte e bonita, que sempre ele via por ali e que,invariavelmente,conversava com ele. 
Ele sempre conversava com ela enquanto esperavam o ônibus chegar. Conversavam durante muito tempo .Só que ela morava em outro bairro,bem longe de onde o Sr. João morava.A Maria era bem simples.Porém, sempre andava bem vestida, perfumada,apesar de trabalhar como diarista em casas de grã-finos, nos condomínios horizontais de luxo que cercam a cidade. 
-Hoje isto é muito comum...
E ,conversa vai,conversa vem, o baiano se "engraçou" da Maria, a diarista. A ponto de um determinado dia,à tardinha,convidá-la para irem tomar um café no seu cafofo. Ou seja, acompanhá-lo até o barracão onde ele morava. 
E lá chegando, ficaram mais à vontade,mais íntimos e ela acabou dizendo que estava gostando dele, que poderiam namorar e até, quem sabe,virem a morar juntos. 
Para ele, a Maria disse que era sozinha e que estava mesmo precisando de um companheiro. 
Então, pensou o João baiano:
-"É juntar a fome,com a vontade de comer". 
-Embora ele não pensasse em casamento.
E desse dia em diante ,outras  tantas vezes eles se encontraram no mesmo ponto,dentro do mesmo terminal de ônibus. 
-Mas nem sempre a Maria ia no seu barraco. 
Então eles combinaram fazer isto apenas nas sextas-feiras,que era um dos dias que em ela ir fazer faxinas nas casas das "madames". 
Logo, como tinha a folga do sábado,ela podia ir com ele até o barracão onde ele morava e namorar um pouco mais... 
Contudo, ela nunca ficava para dormir. 
Dizia que tinha de cuidar da mãe dela, já de idade...
E disse também para o baiano que os filhos  que ela tivera de seu casamento moravam com o pai em outra cidade. Era uma história parecida com a dele. Embora ela fosse uns 20 anos mais nova que ele. 
-E,segundo ela, era livre também!
E o baiano foi contando para ela seus segredos,suas manias e toda sua vida.Falou até que tinha uns "trocados" na poupança e que guardava dinheiro em casa. Aliás, sempre ele dava uns presentes para a Maria. E também dinheiro. E, às vezes,após ela lhe contar que tinha uma conta de água ou de energia vencida, o baiano lhe dava o dinheiro para ela pagar tais contas. 
Isto acontece muito nestas relações amorosas. É uma forma de pagamento pelos serviços sexuais desses namoros clandestinos,sem que coloque a namorada na mesma condição de prostituta. 
-Muitos homens já fizeram isto. Muitas mulheres já aceitaram isto...
E o Sr. João Silva, o baiano, sozinho e carente,foi se acostumando àqueles "encontros clandestinos" com a Maria. Ele já estava ficando acostumado. E ela, com sua experiência de mulher quarentona,morena e saudável,dava um "bom trato",por assim dizer, no "Seo" João. Ou seja fazia um bom "rala e rola" com ele,na cama de casal que ele tinha no seu barracão,apesar de viver sozinho..
Num destes encontros, no final do ano de 2014,a Maria veio de repente ao seu barracão.Não era sexta-feira como de costume, mas sim um sábado. E ela chegou no barraco de "Seo" João mais entusiasmada,mais alegre,mais fogosa... 
Chegou toda arrumada, cheirosa e com roupa mais nova e decotada.
-Estava,por assim dizer" pintada para a guerra"... 
-Ou como se diz no Nordeste : " Do jeito que o Diabo gosta ".
Estava muito bonita mesmo. Era pobre, porém bonita. As mulheres brasileiras são sempre muito bonitas. É só dar uma "arrumada" e todas ficam bonitas... mesmo as mais pobres.
-Continuam pobres,porém bonitas ! 
Aliás,como dizia um de meus irmãos, "ser pobre não é defeito,é uma infelicidade grande". 
E naquele sábado de dezembro de 2014,a Maria falou para o baiano que naquele dia iria "fazer umas posições diferentes" com ele. Trouxe até umas algemas (destas que os policias usam para prender bandidos),e disse que o Sr. "João " deveria colaborar com ela que iriam ter os maiores prazeres possíveis, nesta "relação sexual", com muita tesão e desejo de ambos...
-E ele ficou mais "animado" ainda.
Antes, conversaram um pouco e tomaram umas cervejas ,destas de latinhas,que o baiano sempre tinha em sua geladeira surrada. Ficaram meio "grogues" E ela, que bebera menos, ficou no "controle" daquela situação. 
E depois de algemá-lo,mandou que ele tirasse a roupa,deitasse e fechasse os olhos.E ela subiu literalmente em cima dele, nua como veio ao mundo,começando assim a sua "massagem" sexual.
-Ele adormeceu ! 
Para quem tem quase 60 anos de idade,bêbado e já com a pressão alta e a tensão do momento, é fácil acontecer isto. E ela dominando totalmente a situação,começou sua "sessão", para, segundo ela, proporcionar mais prazer ao amante baiano,que estava gostando mesmo daquela situação. 
E ele, por instantes delirou, sonhou,sentiu prazer,numa situação de sonolência e êxtase,como há muito tempo não sentia.
De repente a Maria, que agora tinha outros objetivos naquele dia, tampou a respiração do baiano com um travesseiro,sufocou ele até a morte. Ele já sonolento e fraco nem se debateu muito...
-Morreu mesmo!
-Pode ser até que ele tenha morrido feliz,mas não pôde dizer isto para ninguém.
E a Maria,que sabia que ele tinha um dinheiro guardado embaixo do colchão,empurrou o baiano para um lado,levantou o colchão e pegou cerca de  R$11.500,00 num pacote enrolado em jornais,junto com outros papéis que havia lá. Eram as economias do Sr. João Silva,brasileiro,aposentado,sozinho,vendedor de água de coco,que agora já não iria precisar de mais nada. 
-A não ser de um enterro digno.
E a Maria saiu sorrateiramente dali,sem chamar a atenção de ninguém. Já eram cerca de 11 horas da noite daquele sábado quente de dezembro.
Na concepção e no pensamento dela, ela "tinha feito a feira" como dizíamos no Nordeste. Estava com mais dez mil reais na bolsa, e foi embora para sua casa...
Lugar este onde ela nunca havia levado o baiano para conhecer. Só visitava ele naquele barracão de três cômodos,que ele alugava,mas nunca disse a ele onde ela morava realmente: o nome da rua,o nº de sua casa,etc..
Nos domingos de manhã,como era de costume,o Sr. João Silva,o "baiano", saía sempre para fora do barração,conversava com o proprietário e ia sempre numa igreja católica do bairro, bem perto de sua casa. E à tarde, invariavelmente,ia aos Estádios ,quando jogava seu time de futebol preferido. 
Porém,naquele domingo de dezembro, em seguida ao sábado que a Maria havia lhe roubado o dinheiro,ele não apareceu, pois estava morto. 
O dono da casa estranhou a ausência dele. E lá pelas 14:00 horas foi ver se tinha acontecido alguma coisa. E viu a porta do barracão entreaberta. Como ele era bem amigo do "baiano" e era dono do imóvel,adentrou ao barracão e foi até o quarto onde "Seo" João dormia. 
-Dormia para sempre agora...
E encontrou ele morto, com as mãos algemadas e papéis e documentos dele pelo chão,perto da cama. É que caíram do pacote que estavam junto com o dinheiro dele,que a Maria havia roubado.
Num destes papéis, junto às letras escritas pelo baiano, estava um número de um telefone celular. Era o número do telefone da Maria,cujo sobrenome  dela o baiano  nunca tinha perguntado. 
Com esse número a Polícia chegou até a Maria, que era casada,tinha filhos. 
E o pior é que o marido e filhos não sabiam de nada. Ficaram todos assustados com a notícia e ao verem ela sendo presa. Ela sempre encontrava com o baiano às sexta-feiras à tardinha e sempre chegava antes das 9:00 em casa. 
Dizia à família que "os ônibus tinham demorado demais". 
E dissera ao marido e aos filhos,que naquele dia fatídico (em que ela foi "vestida para matar"),que iria numa Igreja,à convite de uma amiga,rezar para ver se melhorava a vida dela e da família...
O Sr. Alcides,o dono da casa, deu um enterro digno ao baiano. Nem ele conhecia a família original dele. 
A Maria foi presa em 2015 e foi condenada a 18 anos de prisão. Logo ela que tinha família, nunca tinha cometido qualquer crime antes... 
E tinha marido trabalhador,os filhos ainda adolescentes e casa para morar.
-Como foi cometer um crime destes ?
Isto sem falar no adultério, pois ao se relacionar com o baiano,estava traindo o marido,que só soube disto no dia da prisão dela. 
E o Natal desta família,em 2015, foi bem diferente dos outros... Com a Maria, a diarista honesta e mãe de família, presa por crime de homicídio.
Já para o João Silva, o baiano vendedor de água de coco, nada mais aconteceu desde então... 
Pois, "os mortos são homens sem futuro",como dizia o Barão de Itararé" (Pseudônimo do jornalista paulista AparícioTorelli). ...
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 P.S. - Como a história é real,os nomes das pessoas foram trocados e omitido o nome da cidade e dos bairros onde moravam.

Que sirva de exemplo para outras pessoas.

E dai se tiram três conclusões : 
1)- Que não se pode confiar em ninguém. 
2)- Que o sexo,às vezes,pode matar...
3)- Que a cobiça ao dinheiro alheio, leva à cadeia !

-Alguém tem duvida disso ?
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Conto Original de Antônio Gomes.(Este é um dos contos que farão parte do meu livro "Os Retratos da Vida II,a ser publicado em 2017). 
Reedição e postagem : 05 de fevereiro de 2017.