terça-feira, 27 de dezembro de 2016

QUEM ERA "LETÍCIA" ?

Cláudio e Edivânia formam um casal moderno... 
Ele com 40 anos de idade e ela com 35. Quinze anos de casados e sem filhos. Moravam em um bom apartamento no centro da cidade. Saíam muito.Carlos tinha um pequeno comércio e Edivânia era dona de casa, e vendia estes produtos de beleza conhecidos, apenas para poder ter uma outra atividade. Ela tinha o carro dela e dependia pouco do Carlos nestas vendas...
Mas, eles iam muito a festas,teatros,cinema e futebol,no carro de Carlos. Não havia tempo ruim para eles.
Carlos trabalhava muito,mas aproveitavam a vida,por assim dizer. Só faltava ter filhos.Mas a mulher não podia ter filhos.
E num belo dia de outubro do ano de 2015,resolveram ir ver um filme no Shopping ,que fica anexo à grande Rodoviária da cidade.
Eles procuravam nos jornais e marcavam qual filme iriam ver. E neste dia, o filme que queriam ver só estava sendo exibido naquele cinema. E viram. Com direito a pipoca, refrigerante e tudo mais.
Depois saíram e foram ver as vitrines das lojas do shopping onde também fica o Cinema e muitas lojas bonitas, que mostram todas as novidades e coisas para se comprar. 
Ficaram muito tempo por alí.Tomaram um sorvete comeram alguma coisa e depois,lá pelas 11 horas da noite saíram rumo ao veículo do casal,que ficara estacionado por perto.
Eles viviam sempre assim: trabalhando e se divertindo juntos,como se fossem dois namorados. Eram muito unidos mesmo. Como se poderia dizer,cada um tinha encontrado sua alma gêmea...Pelo menos parecia.
-Seria o casal perfeito ?
E ao sairem do Shopping naquela noite,indo de encontro ao carro,que estava estacionado, se depararam com uma jovem moça,de no máximo uns 18 anos de idade, que perambulava por alí,como se estivesse desorientada,e falando palavras sem nexo. Estava ainda pintada,com pouca roupa,e um cheiro de álcool muito grande,que dava para sentir de longe. E tal comportamento chamou àtenção do casal,que se aproximou dela.Ela não era uma "moradora de rua",por assim. Era muito bonita, limpinha. Bem diferente destas pessoas mal-tratadas e sofridas que ficam  nas calçadas da vida... 
Tentaram conversar com ela ,perguntaram de onde era,porque estava alí daquele jeito,mas a moça só balbuciava algumas palavras sem nexo,como se estivesse alcoolizada e dopada.Como se tivesse consumido drogas mesmo.
Perguntaram se ela tinha celular,se ela sabia onde morava, se podia dizer  o nome de alguém da família,para que eles entrassem em contato,essas coisas.Mas ela nada disse de forma compreensiva..
As outras pessoas que viram a moça alí apenas achavam que ela estava esperando alguém. Como é comum por perto das Rodoviárias,mesmo do lado de fora. E alí é sempre muito movimentado,com táxis ,carros e gente caminhando de um lado para o outro. Só que era tarde,estava frio e a moça estava muito estranha...sozinha,sem lenço e sem documento.
Carlos e Edivânia resolveram levar a moça para o carro deles. Ela estava cambaleando,andando com dificuldades, em cima daqueles sapatos de salto alto...
O Carlos que era mais ativo para estas questões,pensou em comunicar à Polícia. Só que a moça que encontraram não tinha documentos,e estava com pouca roupa (uma pequena a apertada blusa colorida e uma saia bem curta), e poderia comprometer eles. Eles temiam sobre o que a moça poderia dizer depois na Delegacia, nesta ou e em outra ocasião, quando se recuperasse. Ela poderia acusá-los de alguma coisa,pois com a confusão mental em que estava,tudo poderia acontecer. 
Então Carlos combinou com a esposa de levá-la para casa. Afinal eles eram um casal sem filhos e tinham um quarto extra com cama arrumada para alguma visita. Edivânia,com atitude normal de mulher nestas horas,viu aquela moça tão jovem, sozinha, bonita e naquela situação,como se fosse uma filha precisando de ajuda. Uma filha que ela nunca tivera !
E "tombou" a cabeça dela em seu colo no banco de trás do carro,tratando-a com carinho,a ponto da moça adormecer em seus braços,dentro do carro. 
E assim foram para casa.
A moça,que não sabia dizer o nome dela para o casal naquela noite de domingo, dormiu até a segunda-feira dez da manhã. E acordou ainda sonolenta ,porém ainda muito confusa. E depois de tomar um banho e vestir umas roupas da Edivânia ,das que serviram para ela,foi tomar um café com o casal. Como Carlos estava curioso sobre a moça,esperou esta hora deste "café" ,um pouco mais tarde, da manhã  de segunda-feira. Afinal ele precisava saber alguma coisa mais sobre  ela,que iria ficar com sua esposa dentro do apartamento.
A estranha moça tinha uma pequena pulseira dourada no pulso onde se lia um nome gravado : "Letícia" ! Este deveria ser o seu nome.
Perguntada, a moça disse que este deveria ser mesmo o nome dela.E que só lembrava que viera de uma outra cidade  do interior visitar uma amiga,cujo nome não se lembrava agora,nem onde morava,com quem foi até um Show em uma boate. E foi lá conheceu um rapaz que deu muita bebida para ela, e a levou para um motel onde deu ainda mais drogas para ela usar.Ela já havia bebido em festas,mas nunca tinha usado drogas antes. E disse que mesmo meio drogada não se sujeitou a se envolver sexualmente com o rapaz, que inssistiu com ela durante toda a noite. Este depois de tentar agredi-la no motel,saiu com ela no sábado à noite pela cidade,levou ela para um lugar estranho onde ela ficou numa cama,adormeceu. Mas não sabia dizer onde fica esta casa. 
E disse ainda que o rapaz  a agrediu nesta casa,  e  depois a  deixou na rua,na tardezinha do domingo, alí,perto da Rodoviária,sem lhe entregar a sua bolsa com documentos,celular e algum dinheiro que tinha. Era só o que ela lembrava. Talvez ela tenha perdido os documentos também,não se lembrava direito.Continuava confusa.
Deu sorte,pois muitas outras mulheres,na situação dela,são mortas. Mas,ela tinha apenas umas marcas nos braços, uns arranhões,como se tivesse sido segurada,com muita força. 

E foi assim que ela estava ali perto de onde o casal a encontrara.
Decerto ela tinha planos de voltar para sua cidade,mas estava sem dinheiro e sem documentos, e totalmente "grogue",tonta e com amnésia,por vezes sentada no chão,hora  caminhando por alí,por perto da Rodoviária,onde também se situa o Shopping onde o casal tinha ido ver o filme. 
-Foi o que deduziu o Carlos e a Edivânia também...
E  eles,desse dia em diante, passaram a tratar "Letícia" como se fosse uma filha.Uma filha que não tinham. Davam todos os mimos para ela,compravam roupas e estavam até pensando em pôr ela para tabalhar no comércio do Carlos. Mas a mulher tinha cúmes do marido,que no entanto,até então não tinha "passado dos limites" no tratamento com a moça E ela era bem bonita,com seus cabelos louros encaracolados olhos verdes e semblante bem jovem.
Havia um porém ainda. Após passados alguns dias,Letícia não se lembrava da Cidade de onde viera e também não quis ir com o casal até uma Delegacia fazer uma ocorrência e tentar tirar outros documentos. Além disso ela estava se acostumando alí,com o casal, e não falava em ir embora. Para o Carlos estava tudo bem. Porém, a Edivânia,apesar de gostar da companhaia diária da moça,tinha muito ciúmes do marido. Era só ele chegar e ela ficava vigiando os passos dele,  se ele estava olhando demais para a moça...essa coisas do ciúme feminino.
Quando saíam na rua diziam que era um prima da Edivânia,que viera do interior.
O tempo foi passando e Edivânia já pensava em arrumar um emprego para Letícia. Dizia para ela voltar a estudar ,etc.
Os dias passaram depressa. Chegou março,abril,maio e chegou junho. A moça de pouca conversa falava em ir embora,só que não falava para onde.  Dizia que realmente não se lembrava de onde viera. E não apareceu notícias do desaparecimento dela na TV.
Acostumado com ela alí,o casal não queria que ela fosse embora. Diziam que ela precisava de documentos.
Preocupado,Carlos procurou um amigo advogado para aconselhar-se daquela situação. O amigo lhe disse que era complicado até ele ir na Delegacia,pois poderia ser entendida aquela situação com "cárcere privado",e eles não tinham o endereço, o nome completo ou mais informações da moça,etc. 
E a Letícia não iria saber dizer muita coisa na Polícia,pois continuava confusa.
Assim preferiram "dar mais um tempo" ,como se diz.
E o mês de junho de 2016 passou ainda assim,nesta mesma situação: Letícia na casa deles,ficava sendo "cobaia" dos produtos que a mulher vendia. Ela conversava pouco,dormia muito.E ia nos locais onde a Edivânia ia. Até na Igreja ! E ajudava nas terefas domésticas.
Letícia sempre calada,pensativa, e esquecida.
E ficava sempre em casa. Só saia com a Edivânia. Não falava com mais ninguém,não namorou com ninguém durante todo o tempo em que esteve no apartamento do casal aqui citado.
Edivânia tinha se apegado tanto a esta moça que a via como uma filha mesmo. Dava muitos conselhos para ela. Letícia só ouvia,não discordava de nada.
Enfim,para encurtar a história,chegou o mês de julho,as férias que muita gente tira. E o Carlos ia fazer uma pescaria longe,na qual a Edivânia não queria ir. E não foi mesmo.

Ele saiu lá pelo dia 10 de julho dizendo que voltaria até o dia 20.Foi longe,para uma região onde tinha parentes que têm fazenda. E neste meio tempo Edivânia foi para casa de sua mãe, que morava em um sítio ,em outra cidade. Foi com Letícia.Lá contou toda esta história para sua mãe, que a aconselhou a procurar uma Delegacia.
Sua mãe,mais experiente, lhe disse para ter cuidado,pois a moça poderia denunciar Edivânia,como se esta estivesse usando-a como uma empregada doméstica sem salário, quando acabasse este período de "esquecimento".
Dia 21 de julho, uma quinta-feira estavam todos em casa de novo. No apartamento bem aconchegante de Carlos e Edivânia.
E no dia 23,sábado, Edivânia foi fazer compras na feira. Era uma das poucas vezes em que a Edivânia não saiu com a Letícia, esta ficou sozinha. Ela gostava de ouvir rádio e "arrumar" o apartamento.
E foi neste dia que Carlos chegou e "pegou" a Letícia telefonando para alguém,usando o telefone fixo,que tinha uma extensão até o quarto. Assim que a viu falando ao telefone,com certa desenvoltura,ficou meio sem graça,mas nada perguntou. E saiu até o corredor do  prédio e ligou no celular da esposa,sem Letícia ouvir. Contou este fato.
-Comentaram tal situação.
E no dia 24,Carlos saiu cedo. Ia para um futebol socyte, num local perto de onde morava. Edivânia,que era cristã praticante,dessa vez foi à Igreja sozinha,pois ia ter uma reunião após o culto e pediu para Letícia fazer o almoço. Ela já tinha feito isto antes.
Depois da Igreja Edivânia foi comprar algumas coisas no Supermercado. 
Chegou às 11:30 horas. E dessa vez não encontrou Letícia em casa.Nem almoço pronto,nem nada. Do apartamento nada foi levado. Apenas as roupas que a Edivânia tinha comprado e dado para a Leticia não estavam mais no guarda-roupa.
Imediamente ela ligou para o marido Carlos,que estava se trocando no vestiário do campinho de futebol,se preparando para beber com a turma. Ele ficou bem assustado. Voltou depressa para casa,dispensou a "cervejinha com os amigos".
Sairam os dois e procuraram por todos os locais onde eles já tinham ido com Letícia. Na feira,na padaria,e nos vizinhos. Nada dela. Nenhuma notícia dela.
Falou com o Síndico,viu as gravações das câmeras do prédio. E viram Letícia saindo pelo corredor,e no elevador. Ela estava apenas com uma sacola grande e as roupas simples.As mesmas que ela estava no mesmo dia que a encontraram.
Saiu pela portaria a pé,virou a esquina e sumiu.
Até hoje não mais apareceu.
E nem Carlos,nem Edivânia tiveram coragem de contar toda esta história na Delegacia.
E agora, passados sete meses desde o dia que encontraram Letícia,eles não tinham o nome completo dela.Não sabiam de onde ela veio. Não podiam dar queixa dela,pois ela  em nada prejudicou eles.
-Será que ela se aproveitou de toda a situação para ficar na casa deles por um tempo ?
Contaram esta história para este simples escriba,que agora repasso aos nobre leitores.
De onde veio Letícia ?
Para onde foi Letícia?
E reforço estas perguntas,com outras perguntas:
-Quem era esta "estranha" Letícia ?
Tão meiga,tão pura,tão calma..
-Que mal tão grande ela sofria em sua Alma ?
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P.S. História com base em fatos reais.  Os nomes das personagens foram trocados,para resguardar suas intimidades .

OBS.: Este conto será parte integrante da 2ª Edição de meu livro "As Vítimas da Sociedade" a ser publicado em 2017.
Texto Original de :Antônio Gomes
 Reedição: 27 de dezembro de 2016.