quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Meu Conto de Natal : O PAPAI NOEL LADRÃO


​Dia 23 de dezembro de 2014, noite fria e chuvosa nos arredores de Goiânia, GO, e o Sr. José, o catador de papéis, empurrava tristemente seu carrinho pelas ruas da cidade. Cansado e desanimado, pois naquele da não conseguira juntar muitas caixas e papelões como fazia de costume. Além disso, estava chovendo há algum tempo e os papeis e caixas que os comerciantes haviam jogado nas calçadas estavam se estragando, ou estavam sendo carregados pela correnteza das águas da chuva. Normalmente ele pegava muitas destas caixas e papelões de embalagens, e era com a venda deles no quilo, que comprava os mantimentos para sua casa. Em outras palavras, a venda destes papeis velhos em um determinado comprador, era o seu ganha-pão. Era esse o seu trabalho aqui desde que viera do Estado do Maranhão e com ele sustentava da forma que podia, a mulher Maria e os três filhos menores, Tiago, João Paulo e Betânia, que ainda não tinham se matriculado no ensino fundamental desde que chegaram em Goiânia, GO. 

E naquela noitinha, antevéspera do Natal, ele já estava voltando para casa todo molhado, quando resolveu entrar num boteco para tomar umas "pingas”, pois ninguém é de ferro, como ele mesmo dizia! Tomou uns dois ou três goles de cachaça e voltou ao seu carrinho com papeis velhos, retomando o caminho de sua casa. E apesar da chuva fina intermitente naquele dia, o "clima" era de Natal mesmo, com luzes coloridas pelas casas, nos postes, nos prédios e, obviamente, nas Árvores de Natal.

De repente, ele parou em frente a um Supermercado, destes maiores que, praticamente, são detentores do comércio dos bairros onde se situam, e ficou vendo toda aquela fartura, com tantas coisas gostosa à venda. Pessoas entrando e saindo com seus carrinhos de compras cheios, colocando nos porta-malas dos carros. Crianças contentes com vários brinquedos na mão.
Vê tudo isso só lhe fazia sofrer ainda mais, tal a sua pobreza e a sua condição humana diante de tudo. A comparação que fazia, era inevitável ...

E naquele dia específico, ele só tinha no bolso alguns trocados, que lhe permitiria comprar o café e o leite que sua cara-metade havia lhe pedido para comprar assim que saíra de casa. Na verdade, um barraco velho de tábuas e lonas que ficava num lote, nos arredores da cidade. Mas, ele gastara o dinheiro com as cachaças que tomou. E assim, meio "grogue" pelas pingas que bebera, sentou-se na calçada deste Supermercado, e diante de uma TV grande que estava na porta, começou a prestar atenção nos noticiários das 19:30 horas. Eram só notícias sobre corrupção, falcatruas de políticos, de empresários, crimes de roubos menores, coisas que viraram rotinas em nosso Pais...A roubalheira é antiga por aqui. Porém, o José, o catador de papéis, nada podia fazer. Afinal de contas, ele era apenas um homem pobre, quase um pedinte.

Ele agora estava a imaginar como iria conseguir comprar os presentes que seus três filhos haviam lhe pedido. Como iria fazer? E ficou por um tempo, vendo a TV e pensando na vida. Mas, levantou-se e voltou ao seu caminho para casa. Estava pensando na "bronca" que iria levar da Maria, por não estar levando o leite e o café. Chegou em casa e caiu em cima do colchão velho que estava à sua espera. Nem deu ouvidos às reclamações da “patroa”, e se entregou ao sono, "apagou"... 

E ele dormiu até ás 10:00 hora da manhã seguinte, que era o dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Acordou e se deparou com a realidade nua e crua de sua vida, sem dinheiro para comida e para comprar os presentes da Maria e dos "meninos". Sua "cara-metade" queria pelo menos comer um frango assado; o filho Thiago queria uma bola e uma chuteira; o João Paulo, uma bicicleta, e a menina chamada Betânia queria roupas novas, pois, com 12 anos ela já tinha "enjoado" de bonecas há muito tempo.
-E agora José?

Ele ficou todo aquele dia a pensar e "matutar" sobre sua vida, sua condição social. Depois de comer arroz com ovo no almoço, sentou numa cadeira velha na porta do barraco e ficou ouvindo um rádio de pilha velho que possuía. Notícias de esporte, de políticos e de crimes, estas coisas que se ouve todos os dias. E os seus filhos brincavam no terreno da casa e sempre lhe perguntando sobre os presentes...se o "Papai Noel" iria lhes trazer os seus presentes. E esse pobre José, que deveria ser o “Papai Noel” deles, não tinha a menor condição de comprá-los neste dia. Árvore de Natal, frango, vinho para a ceia, até aquela hora nada. E veio a noite, com o José ainda calado, pensativo. A Maria tinha ido na casa de algumas conhecidas vê se ganhava alguma coisa. Era comum ela fazer isso. Às vezes, ganhava!

De repente, lá pelas 8:00 da noite, o José teve uma ideia: Iria sair dali e iria conseguir umas coisas de comer e uns brinquedos para seus filhos. Iria pedir, claro. E pensava lá com seus botões:
-Quem iria lhe negar uns brinquedos, alguma comida e algumas roupas usadas, já que a solidariedade das pessoas é maior nesta época do ano?
E saiu pela noite, com um saco de algodão cru vazio em uma das mãos. Começou pelo bairro onde tinhas as casas mais "chiques". Estas que chamam atenção de longe. Na primeira casa na qual ele pensou em pedir, tocou a campainha e nada. Era uma destas casas de muros altos, cerca elétrica e alarme. Ninguém atendeu. Andou mais pelo setor, bateu palmas no portão e nada. Algumas estava vazia, pois o silêncio era total.
E assim, ele andou por muito tempo pelas ruas daquele bairro chique, até se deparar com uma casa onde o portão da garagem estava meio aberto e essa garagem dava para dentro da sala da casa. Chamou, bateu palmas, mas ninguém atendeu.   Havia um barulho vindo de uma festa; música e conversa vindo no fundo da grande casa, cujo terreno era maior ainda.  E ele entrou na sala daquela boa casa onde encontrou no sofá caixas com vinho, bolas, bonecas e até uma bicicleta de criança, novinha no canto da sala.
- Seria este o Milagre de Natal que tantos falam?  
Tinha até uma roupa vermelha de Papai Noel. Só que todas aquelas coisas eram de outras pessoas. Mas, na hora, ele não pensou isto.  Pegou tudo pôs no saco que tinha levado de casa e saiu calado sorrateiramente. Antes, porém, vestiu a roupa de Papai Noel e começou a pensar que ele tinha conseguido seu objetivo, presentear os filhos, pelo menos...   Agora sim, ele seria o Papai Noel de seus filhos, com brinquedos para dar a eles na noite de Natal.

Porém alguém viu ele saindo dali com os objetos roubados e chamou a Polícia. Deu zebra, como dizem! José, o pobre catador de papel, foi preso em flagrante com aqueles pertences. E foi parar no Distrito Policial. Parece que o dizer antigo de que "alegria de pobre dura pouco" estava valendo mesmo.  Era muito azar para um dia só, pensou ele... logo ele, que mesmo sendo muito pobre, nunca tinha sido preso nem processado até aquele dia.

E assim, em pouco tempo, o José, de um simples catador de papel pobre que nem Jó, estava agora sendo “gozado” no Distrito, pelos Policiais de plantão, que o chamavam de “Papai Noel Ladrão”. E o pior de tudo é que, como ele foi preso em flagrante, só seria liberado se pagasse uma fiança de, pelo menos, um salário mínimo. É a Lei.

E ele dormiu na cadeia naquela noite de Natal. Ele não tinha celular nem telefone fixo para pedir ajuda, para avisar alguém. E só no dia seguinte um Agente de Polícia se apiedou dele e foi até o seu barraco avisar à Maria, sua cara metade, de que o José estava preso e o que tinha acontecido com ele na noite anterior. 
Esta, ao saber da história, foi se socorrer com uma senhora bondosa para qual ela arrumava a casa e passava umas roupas em dias alternados da semana. Esta senhora, D. Adelaide, foi o “Anjo da Guarda” da família. Pagou a fiança do José, levou todos para a casa dela, para passarem o Natal com ela, seus filhos e netos, e ainda deu roupas para todos e brinquedos para as crianças do catador de papel. 
E mais, passado o Natal e Ano Novo, ela conseguiu vagas numa Escola Municipal perto de onde morava, para os filhos do José, e um emprego para este, na chácara de um dos filhos dela, para que o José fosse morar e tomar conta da mesma. 
Ou seja, depois da tempestade, veio a bonança. E neste Natal de 2016, todos estão tendo uma vida melhor!
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Redição :21 de dezembro de 2016.

Conto original de  Antônio Luiz Gomes (Advogado-Escritor), parte integrante de  meu livro “As Vítimas da Sociedade”, editado pelo Clube de Autores-1ª Edição -2015