quarta-feira, 27 de abril de 2016

JORGE (Homenagem).


Neste  último dia 24 de abril fez aniversário do acidente de trânsito que vitimou o  meu irmão mais velho,Jorge Luiz Gomes,que após três dias na UTI do Hospital Neurológico,veio a falecer dia 27 de abril .
Jorge era quase dez anos mais velho que eu e além de ser meu irmão biológico, era também um amigo,para todas as horas. Foi ele que,após a morte do meu Pai, ajudou-nos muito da forma material,pois embora já fôssemos todos adultos e já estivéssemos trabalhando, era ele o que "trazia" a ajuda financeira,enquanto nós outros estávamos procurando se "acertar" na vida.
 Foi ele quem "segurou" a barra da sustentação da casa,até eu me formar, e devo ,em parte, minha formatura à ajuda desinteressada dele. A ele e também à Rosa, e à Milia, minhas irmãs,que sempre me ajudaram.
Jorge era um dos melhores vendedores ,no âmbito comercial,que conheci. Trabalhou desde jovem em lojas,primeiro com meu tio e meu pai,lá nos longínquos anos 60, na Bahia,onde ,juntamente com minha outra Irmã, a Nita, trabalharam com meu Tio Cícero,na Loja chamada"Lusitânia",em Vitória da Conquista,Estado da Bahia. 
Ele vendia tudo. Ninguém saía sem comprar !
Depois,já nos anos 70,em Goiânia,na feira com meu pai, ou com o Nairo,em Goiânia e Goianésia, e por fim,na mesma loja em que trabalhei,na "Cidade Jardim ",por onde passaram ,além de mim, a Rosa e a Milia. A Rosa continuou na Loja ainda durante muito tempo. Depois foi para outra  loja.
Porém ,tanto eu como a Milia, saímos,fomos para outros objetivos e Jorge ficou na Casa Silva,do "Seo" José Mago (José Alves da Silva), onde trabalhou entre 1974 e 1983...
O Acidente ocorreu num domingo, dia 24 de abril,perto do Detran,na Cidade Jardim,em Goiânia.
Ele Partiu "antes do combinado"...
Jorge gostava de futebol, e torcia para o Atlético Clube Goianiense, que foi recentemente bi-Campeão  estadual, e poderá a vir a ser tri. Gostava muito  de conversar,de filmes e obviamente, de mulheres. Mas não se casou, nem teve filhos. . Um ano antes de falecer,arrumara uma namorada firme e estava com intenção de se casar,mas "não deu tempo"....
Na Cidade Jardim,nos 09 anos que foi o "timoneiro" da loja,indiretamente ajudou à família do "Seo" José "Mago" ,da Casa Silva,principalmente os filhos dele, a crescerem e aprender com ele. Era um exímio vendedor e um brincalhão. Ninguém tinha raiva dele ou ficava descontente com suas brincadeiras. Sabia como ninguém vender para as mulheres,e ficou conhecido no setor todo.
 Era difícil trabalhar na mesma Loja com ele,pois todos queriam comprar apenas dele. Eu mesmo passei por isto em várias situações,enquanto trabalhei lá, quando estava estudando . Enquanto ele "dobrava" os fregueses, se ficássemos ouvindo sua conversa,tínhamos que rir. E, muitas vezes , tínhamos de nos esconder,para rir e não constranger os fregueses.
 Ele era realmente engraçado. São frases suas que nunca esqueço : "Aqui só aceitamos seres humanos !". Ou " Este é um problema de muita gravidez e pouca gravidade",se referindo à freguesas que iam na loja e que  estavam grávidas. Aliás,quando uma mulher jovem dizia :-"Jorge,estou grávida !" ,  ele logo retrucava :  -"Quem é o pai da criança ?". As freguesas não apelavam,e riam destas brincadeiras.Enquanto elas riam,ele ia vendendo,vendendo..
Também gostava de dizer que "Ser pobre não é defeito,mas uma infelicidade grande".... E outra frase sua era " Para ser louco ou doido é preciso ter muito juízo !"...Me lembro também que quando uma pessoa era mais religiosa ele fazia brincadeiras com os conhecimentos bíblicos que tinha,pois lia muito aquelas Revistas das Testemunhas de Jeová,que ele "seguiu" por um tempo.Ele gostava de dizer: "Nem só de pão vive o homem..Mas com uma manteguinha e um pouco de leite,o pão vai bem!"
E para alguns dos filhos do "Seo" José,que muitas vezes não iam trabalhar na loja,ele dizia: "O problema dele é que  não tem tempo de trabalhar !"
Ele não quis evoluir no estudo do ensino formal,estes de 1º,2º grau,ou superior.Porém,tinha um conhecimento acima da média e lia muito. Era um autodidata em viver. Sabia filosofia e psicologia de tanto ler...Seu livro de cabeceira era " Ajuda-te pela Psiquiatria" de Frank S.Caprio, que eu também li e reli.
Jorge sabia cativar os fregueses,que,invariavelmente,se tornavam amigos dele e conhecidos nossos.Até hoje encontro pessoas nas ruas de Goiânia e que me viram trabalhar lá,na mesma loja que ele. Estas pessoas nem lembram meu nome,mas perguntam:
-" Você é irmão do Jorge ? "
E assim,por "tabela",também fiquei sendo um pouco conhecido...(Como irmão do Jorge!)
Mas, o destino não quis que Jorge envelhecesse. E ele se foi ...(Pelo menos  a sua vida terrena expirou ).
Foi no dia 24 de abril de 1983,num domingo,que Jorge ia em sua moto para o Estádio Serra Dourada. Ia ver um jogo entre Corinthians e Goiás, pelo campeonato brasileiro. Mas não chegou a ver o jogo. Aconteceu o acidente na Cidade Jardim,perto do Detran. Eu fiquei sabendo à tarde,por informação de pessoas da Cidade Jardim,que o socorreram,e que vieram até nossa casa avisar.Nesta tarde,  como eu também era " meio" jogador,de várzea,estava com a Camisa do Flamengo onde,naquele dia, tinha participado de uma "pelada" em nosso Setor. Assim mesmo fui encontrá-lo, já inerte,no Hospital Neurológico de Goiânia,embora seu primeiro atendimento tinha sido no Hospital Santa Rosa,em Campinas,Goiânia.
 À noite ele já estava na U.T.I ,e dai não saiu mais,até o dia 27 de abril,quando veio a falecer. Traumatismo craniano foi a causa,mas ele não apresentava grandes "arranhões" ou graves hematomas.
Porém,tinha batido a cabeça. A moto não estragou quase nada...
Tivemos de resolver tudo até o seu velório,em casa,a mesma onde morei até o ano de 2012. Muitas pessoas ajudaram e depois vieram dar o "adeus", "despedir-se" de Jorge.
Fui testemunha ocular de sua popularidade no Bairro onde ele trabalhava. Ao passarmos lá,com o carro da Funerária,milhares (isto mesmo) ,milhares de moradores,fregueses e amigos, fizeram uma passarela,em toda a Rua Gomes do Nascimento,onde funcionava a Casa Silva, e bateram palmas para o Jorge,na despedida final.Eu,que estava no carro da Funerária ao lado do motorista,no caminho para o cemitério,não pude me conter...tive de chorar.
O Motorista,acostumado a homenagens fúnebres, falou. "Nunca vi uma homenagem destas,a uma pessoa comum,de origem simples.." - Afinal Jorge nem era Político, nem rico,nem famoso....
- "Ele era muito querido!", disse o motorista ! E eu pensei ...Jorge era um puro de coração,por isso todos gostavam dele.
E sabia manter as amizades. Era um "conversador nato".Sempre tinha assunto para  os fregueses e amigos. E as mulheres eram suas freguesas cativas. Sabia como ninguém tratar as mulheres-freguesas.Com respeito,claro,mas sempre brincando!
Hoje ainda sou o "irmão do Jorge"... Isso mesmo, ele era o importante ali na loja. 
E eu sou ainda o irmão do Jorge, pois "os mortos não morrem".
 Dizem os espiritualistas que ele atingiu um "estágio" muito superior aos outros viventes comuns,como eu. E que por isso,deve estar no local certo e conhecido, para tais pessoas...
- Quem pode duvidar disso ?
E assim, naquela ocasião,estávamos perdendo o convívio terrestre com ele. O velório foi triste,obviamente,mas pudemos confirmar quantos amigos o Jorge tinha feito em vida.Amigos e fregueses,que encheram nossa casa. Carros fecharam a rua,de tantos que foram nos visitar .
Gente que nem sabia onde morávamos, apareceram lá em casa !
Calado,suportei tudo aquilo até o enterro,à tardinha do dia seguinte. Aí sim, é triste ver a partida do corpo,sendo enterrado,com pessoas fazendo elogios,cânticos,rezas,choros,desabafos..(Teve até discurso de amigo bêbado,querendo pular na cova,como o "ZÉ", marido da Eva,que era irmã da Carmem,minha amiga)....Ele dizia: "Eu quero ir também Jorginho !" (Assim ele chamava meu irmão).
Eu já tinha aguentado toda aquela movimentação,durante três dias seguidos sem dormir .Correria a hospitais,cartórios,medicina legal,etc. Até na hora do velório,pois fui eu quem providenciou tudo. Mas após chegar em casa, dia 27 , "caiu a ficha" e aí chorei mesmo,e cansado demais, dormi após os quatros dias de sofrimento desde o fatídico acidente do dia 24 de abril,quando começou nossa "via sacra".
Tive muita dó de minha mãe, já  que ela  tinha "perdido" o meu pai  oito anos antes e depois ver o seu filho querido ir embora,ainda jovem,sem ter tido uma vida fácil.
Jorge trabalhou muito...( logo ele ,que dizia "A gente só descansa quando morre !).
E hoje,passados tantos anos,relembro com saudade de Jorge,que,após a morte de meu pai,foi o irmão que mais conviveu comigo,na nossa casa,onde discutíamos desde religião,futebol e política.E me ensinou muitas coisas sobre a vida,trabalho,paciência e sabedoria...
E aprendi a vender algumas coisas, também,pelo menos um pouquinho.
Jorge se foi,mas não o esquecemos.
Ele está agora,em um bom lugar, certamente...



Reedição : A.G. 27 de abril de 2016