sábado, 5 de dezembro de 2015

UM ENCONTRO ESPECIAL

Dias atrás, entre uma obrigação e outra, resolvendo alguns problemas jurídicos,dei uma paradinha para um lanche no centro da Cidade. Ali, fui reconhecido por uma ex-aluna, agora uma jovem senhora de uns 38 anos de idade,mais ou menos,que estava sentada à mesinha da lanchonete, junto com uma garota de uns 12  para 13 anos de idade,que ela me disse ser sua filha.
Esta minha ex-aluna me reconheceu e me chamou pelo nome,dando provas de que os alunos sempre lembram mais da gente que nós deles.
-Talvez porque são muitos os alunos que passam por nossa vida,enquanto exercemos essa missão nobre que é ser professor.
Ela,me cumprimentou e falou para a filha que eu tinha sido um dos bons professores que ela teve.
Foram  palavras dela,que,obviamente,me deixaram lisonjeado...
Fui reconhecido e ela pediu para eu sentar à mesa da lanchonete. Deu tempo de conversarmos um pouco, nesse nosso "encontro" casual. Ela me disse que " inspirada" por mim, depois daquela época em que foi minha aluna,estudou mais ainda,se dedicou e passou num concurso público dois anos depois, sendo agora professora da Rede Estadual,em Goiânia,GO.
Fiquei contente por ter dado a minha contribuição à ela e a outras e outros alunos,pelo meu trabalho como professor,naqueles anos em que eu, recém casado e com pouco tempo de formado, dei aulas de filosofia, sociologia por oito (08) anos e depois, substituindo um outro professor,ensinei também  a Disciplina "I.E.D."- Introdução ao Estudo de Direito,por mais de seis anos.
Era uma época difícil em que eu, após trabalhar num Escritório de Advocacia durante toda a semana, e de viajar até algumas cidades do interior, ainda ia dar estas aulas aos sábados. Lembro-me bem desses anos,entre 1987-1994,período em que nasceram meus três filhos...
A ex-aluna, chamada Lúcia, lembrando daquela época me disse :
- "Prof. Antônio, nunca me esqueci o dia em que estávamos somente em três alunas, na sala de aula, lá naquele prédio grande ,vazio e frio da Faculdade, no setor Universitário,num sábado,e o Sr. se esforçando para nos passar os seus conhecimentos de filosofia,sociologia,filosofia da educação,etc"
Realmente,me lembrei: Era para ser ,pelo menos,uns quinze alunos que dependiam desta matéria, e os outros não foram,pois era um sábado anterior a um feriado prolongado,e estava no final o Curso deles. 
-Mesmo assim cumpri minha obrigação.
 Ela completou : " Por dinheiro nenhum eu iria ali naquele sábado chuvoso,com a cidade vazia,véspera de feriado,etc"..
Eu então respondi a ela: Eu também não iria apenas pelo dinheiro. Apesar de que eu precisava do dinheiro que recebia pela aulas. Havia uma força maior que me levava lá. E havia o calor humano,dos alunos e das alunas.
Então lhe disse que,certa vez,substituindo um professor,dei aula para um só aluno,ou melhor uma aluna,também no sábado. Eu não poderia dispensá-la,já que ela viera de um bairro distante,de ônibus.E ela iria participar de um concurso no domingo.
Obviamente que haviam outros alunos e alunas em outras salas,com outros professores e professoras.
Parei um pouco a conversa sobre aulas e comentei com a filha dela,uma jovem  menina-moça de 12/13 anos de idade. E lhe disse que eu tinha duas  moças em casa,também. Agora já  adultas.
E lhe disse: Nessa época, em que a mãe dela era minha aluna (1992-1993 ) minhas duas filhas, a Débora e a Ana Luíza, tinham 02 e 05 anos de idade, respectivamente.... 
E eu,muitas vezes,as deixava chorando em casa,quando saia para a Faculdade, naqueles sábados à tarde.
As aulas eram sempre aos sábados, para aquela turma que estava em"regime de acompanhamento",precisando de nota ou em Cursos Especiais,onde as aulas eram de minha responsabilidade. A maioria dos alunos e alunas trabalhavam toda a semana,chegavam cansadas ,mas cheios de interesses pelas aulas. 
-Eu tinha de ensinar e animá-los. 
-Acho que eu fazia isso sempre.
Em 1994, levei estas minhas filhinhas ,numa confraternização de fim-de-ano.Também fui homenageado.Elas,as minhas "meninas", foram paparicadas por todas as alunas, muitas delas que nem sabiam que eu era casado,que tinha filhos,etc. Mesmo porque eu não usava aliança e não falava de minha vida pessoal. Porém havia umas duas ou três alunas e alunos que sabiam,pois me conheciam melhor. Alguns até sabiam onde eu morava. A Sirlene e o Josemarcos estava entre estes.Ficaram sendo meus amigos,mesmo depois de formados. E foram até meus clientes,anos depois.
Mas não dei aulas apenas para poucos alunos. Houve épocas em que dei aulas para cerca de sessenta alunos e alunas numa só sala de aula...e era muito difícil manter a turma interessada,por causa das conversas paralelas. 
-E, por isso, tivemos de dividir as turmas.
 "Alunos sempre conversam muito em sala-de-aula"...  
-Comentou a Lúcia....
- São os "ossos do ofício"...Disse-lhe.
 E além de todos os problemas,eu ainda tinha de enfrentar o ciúme da minha cara-metade,pois ela sabia que na tal faculdade haviam muitas alunas,jovens, bonitas,etc. Porém não me envolvia com nenhuma delas. Por certo havia  uma ou outra interessada,mas ficavam amigas,apenas. 
-Tive uma fã, que era professora como eu, mas ela queria compromisso sério e eu era casado. 
-Ficou só na vontade!
Obviamente que fiquei contente em rever esta ex-aluna.E relembrei deste tempo,que mesmo difícil, foi muito bom para minha vida. Hoje em dia,de vez em quando encontro algum ex-aluno,ou ex-aluna na rua,ou que trabalham no Tribunal, ou em outro órgão público e noto que eles gostam de relembrar tal período, uns 20 anos atrás. 
Algumas ex-alunas são professoras, outros que se formaram em Direito passaram em concursos,são funcionários públicos.Outros são empresários, advogados,comerciantes.
Gente esforçada que iam naquelas aulas de sábado,demonstrando que queriam "vencer na vida". Algumas alunas e alunos já eram casados,e deixavam de passear com os filhos,para estudar.
Foram bons estes  anos em que atuei como professor. 
E realmente,apesar de precisar do dinheiro,não era só por ele que eu ia ali . Havia uma força muito maior que fazia com que eu me dedicasse,preparasse  as aulas,etc.
Porém,por causa de outras obrigações, parei de dar aulas,me dedicando mais ao trabalho no Escritório, em firmas, na área do Direito,atuando em processos comerciais, trabalhistas, na área de direito de família,etc.
Passado esse momento inesquecível,desse encontro feliz, me despedi da agora também Professora Lúcia,a minha ex-aluna e de sua filhota ,cujo nome nem perguntei...
Emocionado,saí dali bem contente. Foram uns 20 a 30 minutos em que viajei ao passado bem recente. Principalmente por que senti que havia dado a minha contribuição para a formação daquela mulher lutadora.
E devo ter contribuído para a formação de outras pessoas também.
Afinal,esta é a missão de qualquer professor.
E repito :
-Um reconhecimento como este que eu tive naquele dia, não há dinheiro que pague !
Foi um "encontro" especial
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P.S. Lembrando dessa época... Lembrei-me das jovens Professoras Denise Lima e Elenice Oliveira que neste período,dividiam estas tardes e estas tarefas comigo. Ambas se formaram em Direito,em meados dos anos 90 


A.L.G. -  Reedição : 05 de dezembro de 2015