quarta-feira, 4 de setembro de 2013

HUMOR NEGRO ? OU REALIDADE ...

Num destes dias passados,veio até meu local de trabalho uma moça, devidamente uniformizada, com craxá e tudo,  e me ofereceu um terreno no Cemitério. Ela, obviamente estava fazendo o seu trabalho.   
Eu, pessoalmente, acho que vender terrenos no cemitério é tão difícil como vender lotes na Lua.
 Para não parecer chacota ou fazer propaganda negativa,deixo de mencionar o nome da moça e da Empresa que ela representava. O certo é que ela era simpática, bem falante e havia assimilado muito bem o treinamento da firma para vender o tal terreno. Não tinha rosto sombio ou triste.Estava apenas cansada de tanto andar.
A promessa dela  era de um lugar tranquilo,bem arborizado,fora do perímetro urbano e com muito verde,passarinhos cantando e suaves prestações para eu pagar "a perder de vista" . Tudo planejado para "agradar" o  defunto, ou seus parentes, provavelmente...
Afinal, defunto não quer nada,não reclama de nada, e não volta ao mundo dos vivos!
Achei interessante, bonito mesmo, o panfleto ou "folder" que ela me mostrou. Nele, um campo verde,árvores ao redor,e alguns túmulos já comprados por outros com lápide bem feita,e jarros com flores... 
Sem desmerecer seu trabalho,lhe disse que eu não tinha pressa em morrer,pois afinal eu nasci  no Dia de Finados   (02 de novembro) e na minha opinião,eu renasço a cada dia, já que nasci vivo, no dia em que se comemora o dia dos mortos.
Ela não entendeu,a princípio. Depois,caiu a ficha, e ela riu discretamente. Achou diferente a minha conversa, disse...
Eu ainda lhe perguntei : Para quê flores para os mortos, se não lhe perfumamos a vida ?
Lhe falei também que,quando era menino,no dia do meu aniversário,minha mãe sempre ia ao Cemitério,na cidade em que nasci. Eu achava que era  um presente esse "passeio" , mas ela me explicou depois que ela estava visitando seus parentes mortos e que alí estavam enterrados e coincidentemente era o dia do meu aniversário. Culpar quem por isso ?
Até hoje, neste dia,não há festa ou qualquer comemoração em minha casa. Simplesmente uma reflexão e a alegria de estar, oh! milagre, vivo.
Não gosto desse dia,pois hoje,ao invés de comemorar,sempre tenho que ir,ou pelo menos vou ,de vez em quando visitar pai,mãe e irmão, já falecidos.
Não é um dia legal esse Dia de Finados,no qual nasci. Muitos parentes se reunem,lembram dos mortos,visitam cemitérios.E não há alegria ...
Porém, voltando à vendedora,já desanimada à tarde,sem vender nenhum terreno no cemitério naquele dia ,eu lhe disse que esta era a "mercadoria" mais difícil de vender,pois nem sempre as pessoas estão preocupadas com esta realidade. É para lá que vamos um dia.  Mas ninguém quer pensar nisso.
Eu,por meu lado,não tenho pressa.
Mas,por via das dúvidas,lhe falei,e é verdade, que eu já tenho o terreno comprado num Cemitério de Goiânia, e fiz isto quando minha mãe ainda era viva,por interesse dela,para que alí ficasse os restos mortais do meu irmão Jorge Luiz.  
Depois,infelizmente,ela, a minha mãe,também foi enterrada no mesmo local. Meu pai foi antes e na época não tívemos a idéia de comprar um terreno para ele. Mas ele foi para o mesmo Cemitério.
 Repito, não tenho pressa de ir para lá. Há quem diga que é "perigoso" , premonitório comprar tais Terrenos.
A moça que queria vender o terreno para mim,apesar de não ter conseguido,descansou um pouco nos 20 ou trinta minutos que conversou comigo,nessa sua empreitada difícil. Pelo menos ela ficou mais consciente dessa nossa jornada aqui na terra:
E disse  - " A vida é já muito difícil para todos, porém é a vida.  E pensar na morte, antecipadamente, é, no mínimo mórbido"...
.-Mesmo assim, é melhor que morrer! Lhe disse eu.
Os mortos não têm futuro, como  dizia o jornalista paulista Aparício Torelli,o famoso "Barão de Itararé ".
Devemos pensar muito nessa certeza de nossa vida e lembrar de um provérbio Russo que diz: " Dos Impostos e da Morte,ninguém escapa".
O certo,pelo menos penso assim, é tentar viver da melhor maneira possível,sabendo que o corpo vai para o cemitério,mais cedo ou mais tarde. Resta a esperança de uma vida futura para a alma.
Acredito mesmo na  Vida além da Vida...Não aqui, no Planeta Terra,mas num Plano Espiritual.
E quanto à moça vendedora de terrenos,pelo menos conforme me disse,gostou da conversa comigo.
E,mais pensativa ainda, me confirmou que logo  iria vender "outras coisas", outras mercadorias mais interessantes. Coisas que as pessoas vivas  pudessem  utilizar  nesta Vida Material... em cima da terra ainda !
-Terreno em Cermitério ? ,lhe disse eu, é coisa para defuntos... e ela riu.  E disse :
-" É ,mas alguém tem de vender tais terrenos."..
E eu aceitei sua afirmação, e retruquei:
Compra quem realmente pode e tem dinheiro sobrando. Ou então, logo após morrer um parente,pois temos de fazer essa parte da última cerimônia oficial da vida.
Da  última realidade da  vida...
ALG - 04 de setembro de 2013.