quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Memórias da Caserna I

Quando estive no Exército,cumprindo minha obrigação de brasileiro, tive várias situações difíceis,nos treinamentos e outras até engraçadas, e que valem a pena ser lembradas.
Em certas ocasiões os treinamentos eram tão pesados, tão cansativos ,que não gosto de lembrar. Mas sempre fica a lembrança do tempo em que passamos lá,eu e todos os outros colegas que "serviram" ao Exército Brasileiro,na C.C.S, do 10º Batalhão de Caçadores,em Goiânia,GO. Inclusive é muito bom encontrar os ex-colegas aqui fora,batalhando na vida civil. 
-Alguns ficaram lá....
Como se diz normalmente: "Enganjaram".
Tem um que é Capitão,encontrei com ele estes dias. Acho que este Batalhão onde servi  nem mais existe e creio que foi o mesmo que deu lugar ao Batalhão de Operações Especiais,  que  também está perto do Jardim Guanabara, em Goiânia,GO.  Acho.
Porém,para passar aos "finalmente", lembro-me de algumas situações que viví ali,envolvendo eu e alguns colegas da CCS-Companhia de Comando e Serviços,dos quais não me esqueço.Como,por exemplo, do colega chamado por nós de "Boi"-  nº 647 (Soldado Divino), do Miranda (664),este metido a Locutor de Futebol . Lembro-me também das peripécias do  "Peninha",cujo número não me recordo agora
Certa vez,de plantão,como "Cabo de Dia", fiquei "fiscalizando" os outros colegas soldados, de plantão. E no Plantão, ficávamos 24 horas diretas,revesando,duas horas na sentinela,duas horas descansando.Mas no final deste período de 24 horas o cansaço é tanto que o soldado que está de serviço,de plantão,cochila "no posto" como se dizia. Neste belo dia, enquanto eu saíra um pouco,para respirar, fora do "corpo da guarda",o Tenente,Oficial de Dia (e de noite,pois ele também fica 24 horas de plantão),"pegou" o Soldado Divino,647,literalmente dormindo,com o capacete caído na testa, debruçado sobre o balcão de cimento,do "alojamento" da CCS. O Tenente deu um tapa tão forte na cabeça do soldado,que o capacete dele voou longe. O "Boi", como era chamado por nós, o tal Soldado Divino, assustou-se e deparou-se com o Tenente,armado, na sua frente gritando com ele. E este Oficial de Dia perguntou :-" Que você está fazendo soldado ?"...
Ao que o Soldado Divino, meio sonolento ainda respondeu:
 -"Ora Sr. estou servindo o Exército !!!!!"
Em outra ocasião, estávamos em treinamento de luta,corpo a corpo. Um tenente instrutor,destes bem treinados ,que viera da AMAN,deu-me um golpe de jiu-jitsu que caí com as costas no meio fio,dentro do quartel.Tive problemas com a coluna.Fiquei uns  oito dias na Enfermaria. Sarei depois de muito raio ultra-violeta nas costas (acho que era esse mesmo) e injeções de Besotasil de 500mg. Era um sufoco o tratamento, sob pressão, para ter alta logo. 
Era "cobrado" todo dia,para "desocupar a vaga" , na enfermaria do quartel.
Depois, ,em outra ocasião, fomos fazer uma marcha, de 32 quilômetros, sem parar. "Estranhei" o coturno(botina de soldado),tive de "baixar" na Enfermaria, de novo . Fiquei uns cinco dias alí,tratando do pé.
Naquela ocasião,junto comigo estava o Peninha,que tinha este apelido por causa do personágem de um Gibi do Pato Donald,aquelas revistinhas de Walt Disney,onde aparecem o Gastão, o Professor Ludovico, o Huguinho, o Zezinho e Luisinho .Além do  próprio Pato Donald e também  o Peninha.
Nosso "Peninha", o do Exercito, era bem "derrubado",fisicamente e se machucou pra valer. E estava internado na mesma época que eu. Na verdade,quando cheguei na enfermaria,ele já estava lá,em tratamento.
Ficávamos na enfermaria em tratamento intensivo, sem muitas mordomias,como é no Exército. Mas tinha enfermeiro,curativo etc. E uma cama de hospital normal,com manivela e tudo,para esticar as pernas, levantá-las e também para  levantar e acomodar a cabeça.
Alí fiquei uns cinco dias,tratando do pé furado,no calcanhar,por causa de uns pregos,ou pedras no coturno. O Coronel disse que eu tinha "pe-chato". Conversou comigo em Inglês,pois lhe disseram que  eu sabia falar o idioma. Na época se cogitava de mandar alguns soldados brasileiros para uma missão da ONU . Eu tinha interesse em ir .Mas no Batalhão em que eu servia,não me lembro de ter alguém sido escolhido. Também nem sei dizer se realmente eu sabia falar bem o Inglês, naquela época... Eu tinha apenas o 2º grau (ensino médio) e nem tinha estudado muito esse idioma...
- Hoje sei um pouco mais !....
Esse Coronel durão,invariavelmente ia nos visitar. E numa destas visitas, "tirou  um sarro" em nós. Chegou a fazer gozações mesmo,mas era um sujeito legal,em termos. Era o Coronel  Eny de O. Castro. Um gaúcho de uns 48 anos,ainda solteiro,segundo se dizia. Acho que ele casou pela primeira vez com uns 50 anos de idade
Numa segunda visita,notou uma `"marca" de pé no teto branco da enfermaria. Era o pé do Peninha,pois ele fazia acrobacias,tendo como base o ferro da cabeceira da cama da enfermaria. E como caminhava com o pé no chão da enfermaria, ficava com o pé meio empoeirado,ou sujo mesmo. Aqui em Goiás se diz "pé de toddy".
E foi ele que,pulando, fazendo acrobacias,fez a tal marca no teto. Óbviamente que o teto era baixo,destes forrado de gesso,branquinho !....
Ora, como ele, internado em tratamento na enfermaria do Exército, conseguira aquela façanha de acróbata ?
Foi exatamente isto que o Coronel perguntou. Não, primeiro ele quiz saber quem havia feito aquilo. Ficamos calado,de início,mas ele ameaçou. Se não contássemos, seriamos detidos por uns dias.Ou seja,não poderíamos sair do quartel nem nos dias de folga...
-Acabamos por "entregar" o Peninha.
O Peninha,que também pegou o apelido de "pe-na-cova", (nem sei porque)  "pagou  o pato" com o Coronel,que mandou dar alta para ele imediatamente. Acabou- se a "coçassão de saco" ....
 Lembro-me bem quando o Cel. disse ao Cabo enfermeiro: "Como um soldado internado, ("baixado" ) poderia ter feito tal acrobacia,para pôr a marca do pé  no teto branco da enfermaria ?
-Boa pergunta! 
 Nós ,que estávamos no mesmo quarto que ele, sabíamos como ele havia feito..
E o Peninha teve alta naquele mesmo dia...
Quanto a mim, fiquei uns dois dias mais na Enfermaria, saí e fui  fazer o Curso de Cabo. Minha especialidade era a comunicação,com rádio ANGRC-9 nas viágens e fazia plantões no PBX. Mas  na "manobra", que fizemos numa Fazenda Modelo, perto de Cavalcante, Goiás, a" batalha" simulada, de treinamento foi feroz, pesada mesmo, entre  25 de agosto e 05 de setembro. Voltamos no dia 06 de setembro e dia 07 já estávamos "em forma",desfilando na Avenida Tocantins, comemorando o Dia da Independência do Brasil.
Dei" baixa" do Exército no final do ano.Em dezembro,por ocasião do Natal,já estava livre,leve e solto,entre os amigos e amigas da Cidade Jardim, onde eu morava,comemorando a liberdade e a vida...
-com meus 20 anos de idade.
Não me interessei em ficar no Exército,pois tinha um espírito muito livre que não se coadunava com a rigidez do treinamento Militar.
 Mas gostei dos ensinamentos obtidos na Caserna. Acho que todos os jóvens deveriam passar por estes ensinamentos e treinamentos do Exército.
Teve um colega que insistiu ainda para eu entrar na Polícia Militar ,como Oficial,mas optei pelo antigo sonho de  fazer o Curso de Direito, que realmente fiz.
Optei por ser mais livre....e  ter uma vida civil...
Sem uniformes!
A.L.G. - janeiro  de 2011